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História Geral (Material de Estudo) — Revolução Industrial

Criado em: 06/11/2026 Atualizado em: 07/11/2026 Questões adicionadas em 06/11/2026
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Introdução

Uma das principais preocupações dos economistas sempre foi compreender melhor as condições necessárias para se realizar o crescimento econômico. Há muita discussão sobre a maneira pela qual alguns países conseguiram aumentar o ritmo de seu crescimento, e o mantiveram durante muito tempo. Como também existem discussões sobre o motivo pelo qual outros países e regiões não obtiveram o mesmo sucesso. Uma das maneiras para se compreender melhor as condições para este crescimento econômico é estudar alguns exemplos históricos.

A Revolução Industrial na Inglaterra e em outros países da Europa é um bom exemplo de grande crescimento econômico. Neste trabalho será estudado como esta Revolução se realizou na Inglaterra para compará-la com o desenvolvimento industrial na França e na Alemanha. A Revolução industrial Inglesa pode ser descrita como um grande aumento no ritmo de crescimento desta economia durante o século XVIII. A história nos mostra que já houve outras vezes em determinados momentos e em determinadas regiões um aumento no ritmo de crescimento da economia de uma região ou país.

Porém estes acontecimentos foram relativamente raros. Assim QUIGLEY (1963) nos diz que existiram pelo menos 24 civilizações nos últimos 7 mil anos. Todas elas passaram por um período de aumento do ritmo de crescimento econômico, nestes períodos eram realizadas e introduzidas invenções que aumentavam a produtividade econômica. Este crescimento econômico era bastante variado.

A quantidade de novas invenções, a eficiência destas, o tamanho da região para onde o crescimento se difundia ou mesmo o tempo de duração do crescimento econômico variava muito. Assim alguns destes períodos de crescimento foram mais inovadores ouros foram menos inovadores. A sua duração também foi variada, na Civilização da Mesopotânia o período de crescimento durou aproximadamente 2.000 anos mas na civilização Greco-romana durou somente 350 anos. Assim QUIGLEY (1963) nos diz que a civilização Greco-romana deve uma duração de mais ou menos 1.800 anos, desde a sua formação, aproximadamente em 1.200 a.c. até sua extinção pouco antes de 600 7 d.c.

Contudo destes 1.800 anos de existência somente 350 anos, como foi dito, foram de intensificação do crescimento econômico. Esta mesma relação existe para outras civilizações: a Mesopotânica teve uma duração de 6.000 anos onde 2.000 foram de intensificação do crescimento econômico. Além disto estas civilizações se localizavam em uma pequena região do globo e possuíam uma pequena parcela desta população. Assim existiram vários períodos de crescimento econômico na história porém podemos dizer estes foram relativamente curtos e circunscritos a uma pequena região, ou seja, o crescimento econômico na história da humanidade foi raro e de pouca duração.

Estudar como uma sociedade pôde passar de um período de baixo crescimento para um de grande crescimento é do maior interesse. Na Inglaterra do século XVIII e grande parte da Europa no século seguinte houve importantes transformações econômicas e sociais que possibilitaram esta passagem. Como já foi dito acima a Revolução Industrial é um nome geralmente dado para definir uma série de transformações econômicas ocorridas na Inglaterra aproximadamente a partir de 1720. Estas transformações podem ser de maneira simplificada descritas, como uma série de inovações que aumentaram a produtividade geral da economia.

As principais foram uma revolução na agricultura a partir de 1720, uma revolução nos transporte a partir de 1750 e uma revolução na produção industrial com a introdução da máquina a vapor a partir de 1780. Além do aumento da produtividade houve importantes alterações na forma de organização da economia. A principal foi a organização de um capitalismo industrial em substituição de um capitalismo comercial. A diferença essencial entre estas duas formas de organização econômica é que no capitalismo comercial os investimentos são realizados por um comerciante que esta distante do local da produção.

A maior riqueza da Inglaterra no século XVIII

Havia na metade do século XVIII uma relativa riqueza da Inglaterra, se comparada aos outros países da Europa. Havia também uma relativa riqueza da Europa como um todo se comparada ao restante do mundo e mesmo se comparado aos países subdesenvolvidos da atualidade. Podemos chegar a esta conclusão analisando dados retirados do livro A Revolução Industrial de DEANE (1973). Estimativas feitas sobre a renda nacional tanto na Inglaterra e no País de Gales na década de 1750 nos dizem que ela se situava em torno de £12 e £13 per capta (DEANE, 1973, p. 19).

Levando-se em conta que os preços praticados em 1754 eram seis vezes menores que os preços em 1954, pode-se atualizar a renda nacional em 1754 aos preços de 1954. Assim a renda per capta de 1754, já atualizada para os preços de 1954, é de £70. Pois bem, a renda per capta para a Nigéria em 1960 era de £30; a da índia de £25; a da América Central e de Sul £70; a do Brasil £95 em 1961 e a da México £105 no mesmo ano (DEANE, 1973, p.19). Apesar de serem estes cálculos não muito rigorosos, mesmo assim nos dão uma idéia aproximada da situação econômica inglesa na época.

Estes dados nos sugerem, que o nível de vida da Inglaterra na metade do século XVIII era melhor que 0 nível de vida dos países subdesenvolvidos da África, do sul da Ásia e de grande parte da América Central e do Sul, na metade do século XIX. A renda per capta da França neste mesmo período é ligeiramente inferior à da Inglaterra. Não possuímos dados estatísticos sobre a renda nacional dos países europeus no século XVIII. Apesar disso, podemos ter uma boa visão da produção e distribuição das riquezas nacionais neste período através de relato de viajantes que conheceram grande parte da Europa Ocidental no século XVIII, como por exemplo, Arthur Young'.

Com base nos dados destes viajantes podemos dizer que a Inglaterra possuía uma maior renda nacional do que os outros países da Europa Continental, como por exemplo, a França e a Alemanha. Além disso possuía uma distribuição mais cqüitativa da renda, a sua população era mais urbanizada e estava crescendo em um 1 Arthur Young foi um importante viajante, escritor inglês na segunda metade do século XVIII. Percorreu em suas viagens grande parte da Inglaterra e da França, deixando muitos livros, que são fonte de informações para muitos historiadores, é citado várias vezes em MANTOUX, [19-], LANDES, DEANE e HOBSBAWM. 12 rito maior do que a população continental (LANDES, 1994). Existem algumas boas indicações, a respeito as distribuição de renda na Europa do século XVIII.

Nas sociedades com grande concentração de renda há uma relativa abundância de mão-de-obra, o que da origem a salários baixos. Em sociedades assim há grandes dispêndios em vestuários sofisticados, em residências luxuosas e em empregados domésticos. Por outro lado, as sociedades com uma distribuição mais eqüitativa da renda há uma mão-de-obra mais cara. Nestas sociedades o consumo tende a ser mais homogêneo; as classes baixas tendem a consumir produtos mais parecidos aos da classe alta.

Além disso, há menos consumo de produtos de luxo e mais consumos de bens essenciais, que são artigos mais simples e baratos. A partir de relatos de viajantes, como o já citado Arthur Young, podemos dizer que na Inglaterra o consumo era mais homogêneo do que em outros países da Europa, e conseqüentemente a distribuição da renda era mais homogênea. Esta melhor distribuição da renda favorece a produção em massa, que precisa ser padronizada e em grande quantidade. Por isto, a distribuição mais eqüitativa da renda nacional,

A urbanização

Outra característica, que diferenciava a Inglaterra dos outros países europeus no século XVIII, era a grande urbanização deste país. A Inglaterra era o país mais urbanizado da Europa. No continente havia um único país, a Holanda, que era tão urbanizado quanto a Inglaterra (LANDES, 1994). A cidade de Londres em 1750 possuía 750.000 habitantes, duas vezes a população de Paris.

Nenhuma outra cidade da Inglaterra possuía mais que 50.000 habitantes. Londres possuía 15% da população do reino e estimulava a agricultura no sul e leste do país e também a exploração das minas de carvão em Newcastle (HOBSBAWM, 1986, p.24). Contudo, por volta de 1750, a Inglaterra era ainda um país agrícola. DEANE (1973) nos fala que nesta época cerca de 60% ou 70% das famílias moravam no campo.

As principais indústrias existentes eram organizadas segundo o sistema 13 doméstico e não segundo o sistema fabril (ver seção 6.1).

1.3 O SURGIMENTO DE UMA NOVA MENTALIDADE

As influências exercidas pelo protestantismo contribuíram para uma mudança de mentalidade em relação à forma de administrar os estabelecimentos industriais e comerciais. Esta influência das religiões e seitas protestantes sobre o comportamento do novo homem de negócio foi analisada por WEBER em seu livro "A Ética Protestante e Espírito do Capitalismo". Neste livro, WEBER (2001) afirma a partir de dados empíricos que os principais industriais e os trabalhadores mais qualificados tinham uma origem protestante nos países em que primeiro se difundiu a Revolução Industrial, (Inglaterra, França, Alemanha, Holanda e Bélgica). Para tentar explicar este fato WEBER (2001) procura analisar o que foi a ética protestante e qual as suas relações e semelhanças com o que ele chamou de espírito capitalista.

Este espírito capitalista não era simplesmente uma procura por lucro indiscriminadamente. No passado, em vários lugares do mundo, já houve sociedades de economias capitalistas, isto é, sociedades onde os agentes econômicos agiam estimulados pela obtenção de lucros através de compra e venda de produtos em um mercado (WEBER, 2001 p. 24). Contudo a economia capitalista que se formou a partir do século XVIII na Inglaterra possuía características diferentes das outras sociedades de economia capitalista que existiram no passado. Nestas economias capitalistas, os lucros muitas vezes era obtidos por meio de uso da força política ou militar, ou pelo roubo e posterior venda do produto em outras regiões, ou pelo financiamento de guerras civis e empreendimentos colonialistas (WEBER, 2001, p. 26).

Entretanto, o tipo de capitalismo que se desenvolveu a partir do século XVI11 na Europa possuía um espírito diferente, era baseado no trabalho livre (pelo menos formalmente), no comércio regular e de um sistema racional de leis e de administração (WEBER, 2001 p.29). Além disto este espírito do capitalismo se caracterizava no século XVIII por uma busca do lucro através da eficiência na administração empresarial. Contudo, o objetivo principal era alcançar a eficiência econômica e não simplesmente se

O cercamento e as novas técnicas agrícolas

Podemos citar quatro características essenciais na revolução agrária inglesa (DEANE, 1973). Em primeiro lugar o cultivo deixou de ser realizado nos campos abertos, em que eram cultivados coletivamente por lavradores, e passou a ser cultivado em propriedades particulares. Em segundo lugar houve um aumento das terras cultivadas. Isto foi realizado através da drenagem de charnecas, e utilização de terras livres para o cultivo.

Em terceiro lugar, a transformação, de unidades agrícolas auto- suficiente, em unidades agrícolas onde o trabalhador era assalariado. Em quarto lugar, houve um aumento considerado da produtividade rural. Obtida através da adoção de novas técnicas de produção, e mudanças na atitude do produtor rural, que passou a ser mais inovador (DEANE, 1973). O primeiro ponto, o segundo e o terceiro pontos acima referidos foram todos eles produzidos pelo processo de encerramento (ou cercamento) de terra.

Este processo foi uma substituição dos campos abertos (que pertenciam a diversos proprietários) e dos campos comuns, em terras privadas (DEANE, 1973). E o quarto ponto que será visto na seção 2.2 (o aumento da produtividade agrícola) somente foi possível graças ao cercamento. Desde o final do século XVIII, a estrutura agrária inglesa era extremamente concentrada, quase não existe um pequeno produtor rural. Contudo, nem sempre foi assim, em grande parte do século XVIII, e principalmente nos três séculos anteriores, existia na Inglaterra um pequeno proprietário rural, em grande quantidade, e com alguma influência política (MANTOUX, [19--], p.122).

Este pequeno produtor era conhecido por yeomen e era um pequeno proprietário 21 (porém não era nobre) que trabalhava pessoalmente a sua terra. Também podia ser um pequeno arrendatário hereditário, em alguns lugares até mesmo um arrendatário vitalício (que possuía o direito de arrendar a terra por toda a sua vida, porém seus filhos não possuíam estes direitos). Algumas vezes estes pequenos proprietários complementavam suas rendas com a produção de manufaturas (MANTOUX, [19--], p.123). O principal motivo para o desaparecimento desta classe de pequenos proprietários foi o cercamento (ou encerramento) de terras.

Muitos destes cercamentos foram autorizados por leis governamentais, que ocorreram principalmente entre 1700 e 1830. Porém desde antes de 1700 já ocorria cercamento por compra ou reunião de propriedades (MANTOUX, [19-], p.127). Os cercamentos foram realizados nos chamados campos abertos ou campos comuns. Estes eram propriedades de origem feudal.

Por este sistema, de campos abertos, uma grande propriedade era dividida em pequenas faixas de terras (geralmente de 200 metros por 20 metros) e cada camponês era proprietário de várias destas pequenas faixas de terras, que estavam espalhadas por toda a propriedade (MANTOUX, [19-]). O objetivo desta complicada distribuição de terras era fornecer uma boa divisão das terras entre os pequenos proprietários, por este sistema as terras mais férteis e as menos férteis eram distribuídas igualmente entre eles (BIRNIE, 1964, p.33). Estas terras denominadas campo aberto, eram cultivadas coletivamente por todos os camponeses que possuíam as pequenas faixas de terras, assim ocorrendo devido à impossibilidade (ou grande dificuldade) de cada um cultivar individualmente a sua própria terra que estava espalhada por uma vasta área (MANTOUX, [19-]). A forma pela qual o cultivo seria realizado era decidida por assembléias de camponeses.

Esta fórmula de cultivo coletivo desestimulava a inventividade e a inovação. Além disso o ritmo de trabalho era sempre determinado pelo trabalhador mais lento (BIRNIE, 1964, p.33). A produtividade da terra era mantida de três formas: a) a aplicação de adubo animal, b) a alteração do tipo de cultura plantada a cada ano e c) o repouso ou pousio da terra. A aplicação de adubo animal é o mais eficiente dos três métodos, contudo ele

A indústria algodoeira

Analisaremos agora os desenvolvimentos ocorridos na indústria algodoeira, isto porque, foi esta indústria a mais importante para a Revolução Industrial na Inglaterra. Todos os autores estudados são unânimes em afirmar isto. A primeira revolução industrial na Inglaterra foi, em grande parte, uma revolução no modo de produzir tecidos e ocorreu principalmente em cidades como Manchester cuja população passou de 17.000 em 1760 para 180.000 em 1830 (HOBSBAWM, 1986, p. 53). A fabricação de tecidos pode ser dividida em quatro etapas.

A preparação, quando o material é separado, lavado e penteado. A fiação quando se produz o fio. A tecelagem quando o fio é entrelaçado para formar o tecido. E, por último, o acabamento, que varia de acordo com o tecido e pode ser a engomagem, a aparação, o tingimento, a estampagem ou outros (LANDES, 1994).

Na fabricação de tecidos de lã, desde o século XI, já foram desenvolvidas máquinas movidas à água, como a máquina de pisoar com martelos movidos pela força da água. Até o século XVIII outras máquinas foram inventadas, porém estes avanços não foram suficientes para produzir uma Revolução Industrial. Para isto era preciso uma máquina que exigisse para a sua utilização eficiente uma grande quantidade de energia, tornando necessária à concentração da produção em fábricas ao invés da produção em residências. Ou seja, que tornasse fundamental o fim do trabalho doméstico.

Além disso, as novas técnicas mecânicas deveriam ser suficientemente superiores aos antigos métodos para dobrar a resistência oferecida pelos artesãos que dominavam as antigas técnicas. Por outro lado, a demanda deveria ser elástica de modo a estimular aumentos na produção (LANDES, 1994). Antes de 1760 a indústria da tecelagem de lã era mais importante do que a indústria algodoeira. Isto porque havia um grande rebanho de carneiro que proporcionava uma boa produção de lã; havia uma forte demanda por produtos de lã em toda Europa, devido ao clima; e a produção inglesa era de boa qualidade.

Muito diferente era a situação da tecelagem de algodão. O tecido de algodão feito na Inglaterra era de pior qualidade que os tecidos produzidos na índia; a produtividade 48 era baixa; e os tecidos ingleses de baixa qualidade tinham pouca demanda (DEANE, 1973). Mas durante este mesmo século a indústria de algodão cresceu em um ritmo muito maior que a sua concorrente, a indústria de tecidos de lã . E foi na produção de tecidos de algodão principalmente, como já foi dito, que surgiram as grandes inovações industriais, no final do século XVIII.

Não é fácil explicar a grande capacidade de inovação e o grande crescimento apresentado pela indústria do algodão em comparação com a lanífera (LANDES, 1994). Nas subseções seguintes analisaremos algumas vantagens da Indústria de tecidos de algodão em relação à indústria de tecidos de lã na segunda metade do século XVIII. 6.2.1 Condições para o seu Desenvolvimento A Revolução Industrial se caracteriza por uma produção fabril e mecanizada. Esta produção deve se realizar em quantidades crescente e a custos decrescentes de maneira que estes dois fatores juntos criem o mercado para a produção industrial. Por isto a condição para a industrialização era a existência de um setor da economia onde os lucros obtidos fossem excepcionalmente grandes, e onde a produção pudesse se expandir através de inovações simples e baratas no processo de produção.

Estas inovações diminuiriam assim os custos de produção, e aumentariam as vendas. Outra condição era a de que houvesse um grande mercado consumidor que estimularia a indústria em seu período inicial. Isto porque em seu início a indústria teria poucos recursos para investimentos, somente em um momento posterior é que ela teria condições de criar o seu próprio mercado através de inovações que barateariam o preço do produto final (LANDES, 1994). Este grande mercado consumidor somente seria possível, segundo HOBSBAWM, (1986) no século XVIII, se um mercado mundial de um detenninado bem fosse monopolizado por um único país.

A máquina a vapor

Antes da invenção da máquina a vapor a energia usada nas fábricas era proveniente da força humana, animal ou hidráulica. Esta última já era bastante utilizada em vários tipos de indústria desde o ano de 1200. Em 1698 Savery patenteou uma máquina a vapor que passou a ser muito utilizada, principalmente no bombeamento de água em minas. Isto porque as minas muito fundas inundavam de água e as bombas de água existentes, antes da máquina de Savery ser inventada, somente bombeavam água a pouco mais de 10 metros.

Assim em muitas minas era preciso bombear a água em várias etapas, o que dificultava a tarefa. A máquina de Savery resolveu este problema. Além de ser utilizada como bomba d'água em minas, esta máquina também era utilizada para bombear água para formar represas que moveriam roda d'água. Poucos anos mais tarde, em 1705 ou 1706, foi inventada a máquina de Newcomen que possuía muito mais potência que a máquina de savery.

E após alguns aperfeiçoamentos se tornou mais segura (havia menor riscos de explosão). Esta última máquina foi utilizada até poucos anos antes do final do século XVIII, quando começou a ser substituída, pela máquina a vapor de James Watt (MANTOUX, [19-], p.312). James Watt foi fabricante de instrumentos para laboratório, era, porém, um grande estudioso, e conhecia as grandes obras científicas da época. Participou de importantes descobertas.

Em 1764 ele fez um primeiro esboço de sua máquina a vapor e em 1769 conseguiu patente de sua invenção. Esta, contudo, era apenas um projeto (uma discrição de como a máquina seria construída) que ainda não havia começado a ser posto em prática. Para concretizar este projeto foram necessários muitos anos e um grande investimento em dinheiro. Seu sócio Matthew Boulton, apesar de ser um dos maiores industriais da indústria de ferro, teve que realizar grandes dívidas para financiar a construção da máquina a vapor.

Somente após 1786 ou 1787, dez anos após o início das vendas das máquinas, é que a firma livrou-se das dívidas contraídas. Em 1775, pouco antes de começar a vender a máquina, Watt pediu uma prorrogação de sua patente por mais vinte e cinco anos. No que foi prontamente atendido, graças a seu 64 prestígio no mundo científico e graças ao prestígio de seu sócio entre os aristocratas. Esta invenção não foi um exemplo de invenção barata e relativamente simples, como as máquinas de fiar e tecer.

Para a concepção e execução da máquina a vapor foi necessário um grande conhecimento e um grande investimento. Watt precisou utilizar- se de todo os progressos ocorridos na indústria de ferro, que já estava conseguindo produzir peças com muito maior precisão do que anteriormente. Foi necessário o trabalho de um fabricante de instrumentos de laboratório e não de simples artesãos. E foi preciso a participação de um grande empreendedor como Matthew Boulton (MANTOUX, [19~],p.320).

A grande vantagem da máquina de Watt foi a economia de combustível realizada. Esta era tanta que Watt e Boulton cobravam pela máquina de uma forma incomum: eles pediam que o comprador arcasse com os custos de produção, a empresa de Watt e Boulton entrava com a mão-de-obra e receberia depois uma porcentagem em cima do combustível economizado pelo comprador com a instalação da máquina a vapor (esta economia era medida em relação à máquina de Newcomen). A partir de 1785 a indústria de tecelagem começou a utilizar a máquina de Watt. Assim as indústrias não necessitariam se localizar nas proximidades dos rios, de onde obtinha a energia hidráulica e podia se instalar em locais mais próximos à matéria-prima e ao mercado consumidor.

Não foi a máquina a vapor que criou as grandes indústrias têxteis, elas já existiam antes e estavam em grande crescimento. Porém após a sua invenção o tamanho e os lucros cresceram enormemente (MANTOUX, [19—], p.339). Em 1870 na Inglaterra as máquinas a vapor realizavam um trabalho que antes exigiria 40 milhões de homens (RIUX, 1975, p. 56), sem esta imensa força das máquinas a vapor teria sido impossível o aprofundamento da Revolução Industrial no século XIX (LANDES, 1994).

A regulamentação sobre a indústria

Para muitos historiadores como LANDES (1994) a principal diferença entre a indústria anterior à Revolução Industrial e a indústria que surgiu com esta Revolução é o grau de concorrência. A indústria anterior é bastante regulamentada, ao contrário da indústria posterior a Revolução Industrial, que é bastante concorrencial. Para Arnold Toynbee' J (MANTOUX, [19--], p.63) a principal explicação para o desenvolvimento da Revolução Industrial foi a passagem da indústria protecionista e regulamentada, para uma indústria concorrencial e por isto inovadora No período que vai do século XIII até meados do século XVIII a indústria Inglesa sofreu algumas grandes modificações. Esta indústria era, no início do período referido acima, composta por "oficinas artesanais independentes" (LANDES, 1994, p. 52) e administradas por mestres artesãos que contava com o trabalho de um ou mais artífices ou aprendizes.

Além disso, esta indústria era urbana e atuava sob inúmeras regulamentações. Por outro lado na primeira metade do século XVIII grande parte da indústria inglesa se deslocou para a zona rural, para fugir dos controles impostos nas cidades pelas corporações de ofício, e não estava mais organizada em "...oficinas artesanais independentes..." (LANDES, 1994, p.52) e sim no sistema domiciliar de produção (ver seção 6.1). Neste sistema o trabalhador era um artesão ou pequeno proprietário rural que produzia tecidos, vestuários ou artigos de metal em sua própria residência. Este trabalhador comprava a matéria-prima de algum comerciante que revendia o produto posteriormente.

Ou era então um trabalhador assalariado cuja única diferença em relação ao sistema fabril era trabalhar em sua casa (HOBSBAWM, 1986). Esta nova forma de organização da indústria estava livre das regulamentações e restrições que sofria a antiga indústria. Esta maior liberdade foi um dos principais motivos do crescimento da indústria de lã crua na Inglaterra no início do século XVIII, que longe das restrições impostas pelas guildas e corporações se tornaram mais eficientes. E esta mesma liberdade explica o maior desenvolvimento desta indústria na Inglaterra em relação aos países do continente, já que nos países continentais a 1 3 Km Lectures on the industrial revohition in England, 1884.

Citado por MANTOUX, [19--]. 66 indústria estava se submetendo a uma regulamentação, e controle crescente. Mesmo na Inglaterra as regiões que sofriam maior controle por parte das corporações tinham mais dificuldades de se desenvolverem. Assim se compararmos a cidade de Sheffield, onde havia ainda grande controle sob as indústrias pelo sistema de guildas em 1764-5, com a cidade de Birmingham, muito mais inovadora, onde não havia qualquer tipo de controle por parte das guilda. Vemos que a maior capacidade inovadora de Birmingham em relação a Sheffield provém das menores regulamentações que produziram um ambiente mais competitivo (LANDES, 1994).

POLANYI (2000) e QUIGLEY (1963) nos falam sobre algumas condições para o surgimento de uma economia de livre mercado e nos dão algumas explicações para a tendência de muitas indústrias, do período anterior a Revolução Industrial buscar continuamente regulamentações e proteções. Em qualquer sistema econômico é necessário tomar decisões quanto à quantidade de bens e serviços que deverão ser produzidos, além disso é preciso decidir quais deverão ser estes bens e serviços e quem os consumirão. A economia capitalista que se formou na Inglaterra após a Revolução Industrial era uma economia de mercado auto-regulado. Onde as decisões, sobre o que e em que quantidade se vai produzir, eram tomadas de maneira automática e descentralizadas.

Ou seja cada produtor decidia isoladamente quanto e o que produziria. Neste sistema uma grande quantidade de produtores competiam entre si forçando os preços a baixarem, e uma grande quantidade de consumidores competiam entre si forçando os preços dos produtos a subirem. Assim a produção e o consumo eram determinados pelo nível de preços (QUIGLEY, 1963). Um sistema de mercado auto-regulado como foi descrito acima nem sempre existiu.

As mudanças sociais na Inglaterra

Por volta de 1850 a Inglaterra já era uma economia industrial. Mas quais foram a mudanças mais significativas que ocorreram neste país durante a sua Revolução Industrial? Em primeiro lugar vamos considerar como era a estrutura social e industrial da Inglaterra por volta de 1850. Nesta época a maioria da força de trabalho era constituída de trabalhadores que moravam em zonas urbanas.

Aproximadamente 3.250.000 trabalhadores estavam trabalhando na indústria e 2.000.000 na agricultura (DEANE, 1972, p. 288). A indústria doméstica, na qual o trabalhador se empregava esporadicamente, havia diminuído visivelmente em 1850 (contudo não estava extinta ver seção 8.2). Porém havia muitas pequenas manufaturas que operavam em unidades familiares como a indústria de calçados e confecções de roupas. O setor de vendas no varejo em local fixo, ou seja, as lojas, estavam começando a adquirir mais importância que as feiras, os mascates e os caixeiros-viajantes (DEANE, 1973).

O poder político nesta época ainda estava fortemente ligado aos proprietários de terras. Os novos industriais enriquecidos para adquirir poder político muitas vezes compravam terras ou se casavam com herdeiras de grandes proprietários. Estes donos de terra tinham lucrado muito com o processo de industrialização através de royalties sobre as minas de carvão (ver seção 4) e os valores crescentes do preço das terras devido à construção de estradas de ferro e da urbanização. Estes grandes proprietários eram os homens mais ricos da Inglaterra no final do século XIX (DEANE, 1973).

No entanto fora a classe média que havia realizado as grandes transformações econômicas. Eram os seus investimentos que fizeram aumentar a renda nacional e inclusive havia sido a sua moral puritana que moldava o espírito da época (ver seção 1.3). Este grupo, chamado de classe média, se constituía de menos de 1.250.000 homens adultos, que representava 18% da população economicamente ativa (DEANE, 1973, p.298). A metade deste grupo atuava no setor comercial (lojistas, banqueiros, auxiliares e escriturários); um quarto era fazendeiros e um quarto deles era 74 administrador ou empregador em indústrias e comércios.

Era este último grupo que tomava as decisões mais importantes no nível microeconômico e deles surgiam as mais importantes inovações na indústria. O seu número era de menos de 300.000 homens (DEANE, 1973, p.298). A primeira metade do século XVIII foi um período de crescimento econômico houve crescimento da produção e da população, porém a renda per capta se manteve estável. Este período de crescimento contrasta claramente com o final do século XVII de estagnação.

No início do século XIX o crescimento acelerou ainda mais. Na década de 1780 e 1790 a renda nacional estava crescendo a uma taxa de 1,8% e a renda per capta a 0,9%. Na primeira metade do século XIX o produto nacional cresceu a uma taxa de 2,9% e a renda per capta â uma taxa de 1,5% (DEANE, p. 253). O crescimento de 1,5% da renda per capta significa que ela duplicava a cada 50 anos, um crescimento assim tão rápido era claramente perceptível por toda a população.

Mas este crescimento beneficiou mais às classes altas do que os trabalhadores. Somente em meados do século XIX é que a maioria da população mais pobre começou a experimentar um melhora em seu nível de vida (DEANE, 1973). A Revolução Industrial não foi somente uma modificação nos meios de produção, ela foi também, como foi dito na seção 1, uma modificação na organização da economia, que passou a se organizar pelo sistema fabril. A expansão do sistema fabril exigiu o recrutamento de milhares de homens e mulheres, apesar da conhecida aversão à supervisão e a disciplina fabril.

Este sistema significou uma importante transformação, agora o empresário não é mais um comerciante distante da produção, como ocorria no sistema doméstico, ou seja uma mudança do capitalismo comercial para um capitalismo industrial.

A Revolução Industrial na França

A França era no final do século XVIII e início do XIX um dos países mais ricos da Europa continental, foi para a França e Bélgica que a Revolução Industrial primeiro sc difundiu durante a primeira metade do século XIX. Iremos nesta seção analisar qual era a situação econômica da França na segunda metade do século XVIII, período em que se desenvolveu a Revolução Industrial na Inglaterra, para posterior comparação com a Inglaterra do mesmo período. Depois analisaremos a situação econômica da França na primeira metade do século XIX (seção 12) quando a Revolução Industrial se difundiu para a França. O fato político de maior importância ocorrido na França na segunda metade do século XVIII foi a Revolução Francesa, ocorrida a partir de 1789.

Para muitos historiadores e economistas a Revolução Francesa foi fundamental para a posterior difusão da Revolução Industrial na França e mesmo no continente europeu, contudo para outros sua importância é bastante questionável. Iremos analisar nesta seção este assunto. Como foi dito acima a Revolução Francesa para muitos historiadores foi fundamental para a posterior difusão da Revolução industrial na França. Segundo estes historiadores a Revolução Francesa foi dirigida em grande parte pela burguesia francesa que eliminou os resquícios do feudalismo que dificultava o desenvolvimento industrial e implantou uma nova ordem econômica: o capitalismo industrial (HOBSBAWM, 1982; SOUBOUL, 1964; COBBAN, 1988; SOLÉ, 1989).

Esta visão da Revolução Francesa de origem marxista foi amplamente aceita não só pelos historiadores ligados ao marxismo como também por historiadores de pensamento liberal. Tudo isto foi descrito, por historiadores como HOBSBAWM (1982), SOBOUL (1964) como a tomada do poder pela burguesia em nascimento o que facilitou a difusão da Revolução industrial neste país e a conseqüente criação do capitalismo industrial. Porém outros autores como COBBAN (1988) e SOLÉ (1989) QUIGLEY (1963) questionaram muitos aspectos desta explicação sobre o que foi a Revolução 91 Francesa e a sua importância na difusão da revolução Industrial para a França. Os argumentos de COBBAN (1988) se baseiam em três aspectos principais.

Ele questiona o que era o feudalismo francês em 1789, e que foi destruído pela Revolução. Quem era a burguesia francesa que comandou a Revolução. E, por fim, quais foram as conseqüências econômicas da Revolução (COBBAN, 1988). Analisaremos estas objeções mais adiante na seção 11.2.

11.1 A FRANÇA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII

É comum aos historiadores dividirem a sociedade francesa do final do século XVIII (período em que ocorreu a Revolução Francesa) em três estados: a nobreza, o clero e o terceiro estado composto pela burguesia e pelos camponeses. Contudo, segundo COBANN (1988) e SOLÉ (1989) a sociedade francesa da época era mais complexa. A diferença entre a nobreza, a burguesia, o clero e os camponeses nem sempre eram claras. E a semelhanças entre os indivíduos de cada grupo nem sempre eram grandes (COBBAN, 1988).

Esta complexidade aparece até mesmo na descrição que SOBOUL (1964) faz da sociedade francesa do final do século XVIII. Este autor continua dividindo esta sociedade em três estados, apesar de sua grande complexidade. Descreveremos a seguir a sociedade e a economia da França antes de 1889, seguindo de perto as descrições de SOBOUL que são bastante ricas em detalhes apesar de sua divisão desta sociedade em três estados ser questionada por alguns historiadores como SOLÉ (1989) e COBBAN (1988). A nobreza, segundo SOBOUL (1964) formava o segundo estado, entretanto era o grupo de maior prestígio na sociedade.

Era composto de mais ou menos 350 mil homens, que formava 1,5% da população do país. Este grupo já havia perdido muito dos antigos direitos que possuía na Idade Média, pois, desde de que se formou o estado nacional francês (SOUBOL, 1964) durante o século XV e XVI (QUIGLEY, 1963 p.283), grande parte dos direitos dos nobres foi transferida para o rei, como cobrar impostos, emitir moedas, fazer justiça e recrutar soldados (SOBOUL, 1964, p.24).

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